dias em branco
- Tandie Sogo

- 19 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Estamos juntos há mais de cinquenta anos. Vivemos numa cidade constantemente fria, que nunca recebe chuva. Há muito tempo não chove nessa cidade banhada por esse rio caudaloso e verde. Mas hoje algo parece estar diferente neste lugar, além deste velório. O céu está mais escuro, os pássaros a ir e voltar em desespero. Transeuntes mais apressados. Este cigarro da nossa última carteira também está sendo consumido muito rápido. Podemos justificar: seja o nosso eventual tragar forte para esquentarmos deste frio, hoje mais intenso. Nós teríamos certeza de que hoje o dia é cinza... Mas esse amontoado de gente de preto que está ali olhando o velório na nossa casa está atrapalhando nossas distrações.
Lembra que sempre achamos muito triste morrer aqui? Em outras cidades, o céu chora, a natureza chora e se expressa em ventanias lindas. Não há nada mais comovente do que um enterro sob uma chuva comedida se elevando na medida do choro e das emoções. Vamos lembrar-nos das nossas conversas e máximas inventadas em tardes e noites de qualquer estação: toda morte deveria ser filmada em cidades assim! E apertávamos a mão um do outro. Aqui, sabemos ser impossível. O céu é irascível, imperturbável e inexpressivo. Diríamos de ele não se contentar nem se descontentar, apenas suporta os moradores, bem como seu trânsito e suas burocracias.
– Está acontecendo algum problema? As pessoas esperam por sua presença mais efetivamente. As pessoas, a imprensa, os colegas de trabalho, os familiares. Está se sentindo bem!?
Hora de pensarmos sobre como falaríamos para nosso afilhado. Ele tão afeito ao marketing depois de tantos anos que pagamos a sua faculdade de publicidade, compreenderia nosso ar reservado? Não comemos ou vestimos à custa da imprensa, dos amigos, dos colegas de trabalho e muito menos dos familiares! Não! Não seremos tão rudes com nosso afilhado. Ele ainda tem o péssimo hábito da juventude de fazer todo momento uma ocasião se não festiva, emblemática, marcante. Melhor dizer da possibilidade de não irmos agora. Precisarmos de mais um tempo para ajustar o nosso comportamento ao acontecimento.
– Precisamos de mais tempo para ajustar o nosso comportamento ao acontecimento!? A gente já esperava por isso, puxa. Foi chegado o momento e agora temos de viver o luto e seguir adiante. É a lei da vida. Vamos, pai! Não posso permitir o seu enlouquecimento! Vamos! Talvez caia uma tempestade daqui a pouco.
Atravessar essa rua nunca foi tão doloroso para gente. Tantas vezes sentávamos aqui nesse canteiro divisor da avenida mais parada da cidade. Desejaríamos agora um assustador tráfego de carros de fórmula um e, no momento dessa longa travessia, atingissem em cheio o que sobrou de nós. Quem diria, não é mesmo, meu amor, um dia desejaríamos um caos na nossa rua.
O senhor Antônio Castelo me olha com condescendência, a senhora Julieta Belmonte me olha com compaixão, o senhor Miguel Figueira me olhar com pesar. Ah! Como essas pessoas tornam mais difícil o nosso último dia, meu amor. É o que pensávamos: as pessoas deveriam comparecer a um velório para ajudar e não empurrar os familiares abaixo da câmara de sepultamento. Pareciam enterrar a gente. Por mim, não tinha chamado ninguém. Por mim, bastava eu e você, e depois eu e suas cinzas. Agora, vejamos, o nosso casarão parece um pedaço de terra mais populosa do território das Ilhas Canárias.
Com essa bengala, sinto-me como Moisés abrindo um Mar Preto. O mesmo mar que anseia se fechar e me ver afogar-se não nas suas águas, mas nas minhas lágrimas. Está aí o que os afilhados e sobrinhos queriam, o que o jornal esperava. Uma foto de mim a segurar um lenço enxugando o rosto, e os olhos fitados no seu corpo de nobre homem.
Você imóvel dentro dessa urna em sua mortalha, tão bem apresentável ao deus que duvidávamos do caráter. Com essa placidez me deixaste após a consumação fatal tão recente. Ainda era ontem, e o leite que me pedira enquanto se balançava numa cadeira lá do outro lado da rua. Ainda era ontem, e o copo estilhaçado, o leite derramado, minha correria.
Pouco a pouco os urubus se vão. Pouco a pouco os bons amigos também. Todos se foram. Finalmente como inicialmente, nós! Ao trancar a porta, vi céu invariavelmente cinza. Assim como ontem, anteontem, o dia de hoje. Os passarinhos já estão indo de lá para cá. Nenhum sinal de chuva. Os transeuntes estão passando. Nossas cadeiras deveriam estar lá fora. Mas estão aqui dentro. Uma me serve para sentar. A outra, vazia, é a lembrança e a certeza de que você voltará para pegar a sua.

Comentários