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todo teu

  • Foto do escritor: Tandie Sogo
    Tandie Sogo
  • 19 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Beije-me os pés, e as canelas que cheiram pelo quarto vão acender em você alguma espécie de iluminação para que você percorra com sua língua toda a minha perna enquanto a coxa de galinha esquenta no forno para sua janta. Então me jante, e deixe aquela galinha da sua mulher para amanhã. Hoje não. Hoje você deve ser inteiramente meu, assim como você está sendo agora.

 

Suba. E aumente o seu tesão ao meu ego inflamado dentro da minha bermuda. Amasse nas minhas pernas o que você tem para amassar no busto da sua mulher. Sedento de volume, eu sei, sempre querendo volumes. Deixo meu cabelo grande para você. E deus me fez bem dotado para você também. Gosto desse seu balé de mão, contemporâneo. Uns dedos juntam-se para explorar sem receio tudo que está escondido por trás das roupas, violentamente. Outros, juntos, num balé sei-lá o quê, cuidadosamente, por um carinho noutra parte do meu corpo, adentra muito profundamente a minha pele e me revira algumas veias que fazem meu coração bater assim.

 

Puxei-o para o meu peito, tentando fazê-lo escutar com a palma da mão o meu coração. Talvez essa linguagem fosse capaz de dizer definitivamente que o queria ali para sempre, que não suportaria viver mais não sei quantos meses daquele jeito escondido e à migalha. E ele parou, pareceu entender por um instante o que eu queria dizer. Seus olhos subiram um pouco da altura da minha perna para a altura dos meus olhos. Pairou a cabeça sobre a minha, a mão ainda no meu peito, e eu alvoraçado, alvoraçada, perdido, perdida, sem saber quem eu era ali. Meu coração pareceu que explodiu e não senti. Ali estava ele me olhando com um ar de riso paterno. E seu riso cresceu no seu rosto barbado.


Sem falar nada eu contive aquela feição ao puxar sua cabeça dura e vermelha, revertendo seu riso paterno em dor servil. Agora está ele de novo no papel que ele criou para si e que me resta conviver e aproveitar. Com sua boca entreaberta, seu hálito de algum péssimo drink de homem de negócios, vem ao encontro do meu pescoço e beija muito perto de onde todas as vezes ele beija para me derreter e caber exatamente onde ele quer. E eu caibo, ele sabe. Eu caibo na vida monótona de um outro homem, sendo talvez o tom mais alegre da canção sigilosa de uma faceta feliz de uma vida triste, porém, honesta. Não me fiz entender. Talvez eu seja o tom mais honesto de uma canção alegre de uma vida em sigilo. Quando o celular chama.


Arrasto seu braço estendido que quer atender a ligação, como uma dessas minhas amigas profissionais que não deixam o cliente perder o tempo caro que pagam. Arrasto seu braço uma, duas, três vezes. E te reviro como nas aulas de jiu-jitsu, imobilizo você. Agora só nós dois e ela que liga e perde para mim senão nessa noite, nessas horas. Sua cara de quem precisa atender, dos compromissos, da obrigação, não me fragiliza. Ainda mais quando reparo bem para sua calça social e noto o inchaço e a pulsão espantosa. Você precisa se libertar, não pode ficar tão preso assim, existem lugares maiores e mais úmidos e quentes e frios. Antes. Antes eu preciso tocar melhor essa sua parte, sentir essa força toda que pede por mim. E me esfregar no rosto todo, e cheirar e morder e prender com os lábios. Agora sim eu te liberto para todo o quarto. Tiro de você a culpa de não atender a ligação. Você é todo meu, todo meu, todo meu. Pelo menos agora que tenho você na palma da mão, dentro da boca. Você é todo meu, todo meu, todo meu. E te reviro. Beijo sua nuca e enquanto você se deixa ser vulnerável, eu tenho a visão das muitas estrelas nas suas costas suada.


...


Derramo-me pelas estrelas que caem na minha cama junto de mim. Pouco tempo depois nenhuma estrela me sustentará. Despencarei do céu estrelado das suas costas. Já consigo ver minha queda por entre edifícios cinzas e pretos, com nossos colegas engravatados e fingidos por trás de óculos e piadas. E caiu, mas não me deixo cair. Pode ser lamentável dizer, mas toda a mentira que você construiu e vivemos não vale a verdade de conhecer, tocar, ver, beijar e deitar nas estrelas das suas costas.

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