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SERTÃO REPRESENTADO

Foto do escritor: Tandie Sogo
Tandie Sogo
2 de fev.
3 min de leitura
quando me olham assim, largado, pensa que não tenho dono 
que sou terra sem lei, sem rei, sem documento
me enxergam seco, duro, rachado
como se rachadura fosse maldição
e não memória
dizem que sou longe
muito longe
mas longe de quê?
desconhecido…
só se for pra você
esse negócio de “longe” quem inventou foi gente da Europa
gente que, sem saber do meu corpo, desenhou distância na palma da mão
pro litoral, chamaram de perto
pra capital, chamaram de centro
pra dentro de mim, "sertão"
vieram andando, cambaleando, uns homens brancos descascados de sol
procurando muito ouro onde tinha era muita vida
passaram por cima de quem já morava aqui
indígenas do Sudeste, do Nordeste
gente inteira que virou silêncio nos seus livros.
os primeiros que caminharam por mim liam meu corpo como se lê um livro aberto
Cariris, Tarairiús, Pankararus, Jês, Xucurus
sabiam da chuva que não vem, do rio que dorme
da água escondida atrás da pedra
do vento que anuncia mudança.
eles eram meus primeiros sertanejos não pelo nome
mas pela maneira de existir comigo

depois vieram outros caipiras, sertanejos, retirantes, vaqueiros
gente que conversava comigo pelo chapéu
pelo jeito de pisar pelo estalo seco do mato
pela cor que o horizonte veste antes da chuva.
mas aí chegou o Estado chegou a capital chegou a estrada e começaram a se pintar de besta “sertanejo não, sô 
sou da banda do interiô”. 

eu vi quando a palavra “sertão” virou xingamento na boca deles 
quando inventaram que eu era sinônimo de atraso 
quando trocaram meu nome de lugar 
empurraram o sertão do Sudeste pro Nordeste
depois pro Centro-Oeste 
como se eu fosse poeira que se assopra pra longe 
ali, o Sudeste se olhou no espelho e se chamou de moderno produtivo civilizado

eu cresci sendo observado, nunca em silêncio 
sempre traziam uma ideia pronta pra encaixar no meu corpo. aí veio um homem com caderno na mão, dizendo que queria me entender
Euclides
sentou no meu chão como quem senta num tribunal
escreveu como quem tenta dissecar um trovão
me chamou de problema de ferida aberta de tragédia feita de carne
e ao ver meu povo retorcido pelas secas misturou sol com diagnóstico e disse que o sertanejo é
"antes de tudo um forte"
ele olhou pra mim com a lente rachada do seu tempo e nessa lente o sertão virou Nordeste áridoo 
sertanejo virou homem da seca
o caipira virou outro tipo de atraso
e o Brasil achou que tinha entendido tudo

vi escritor, pintor, viajante gente talvez bem-intencionada mas ainda presa à mania de transformar minhas pessoas em figura pronta pra pendurar na parede
Debret me pintou como cenário exótico
objeto de observação
Almeida Júnior me trouxe pro cotidiano mas dentro de uma moldura que separava o interior do país que “progredia”
depois veio Portinari e comigo vieram retirantes pés rachados, olhos fundos fome moldando ossos. ele mostrou o sofrimento, não mentiu, mas a imagem do meu povo virou retrato nacional de dor
e quando o Brasil olhava pra essas pinturas achava que eu era só isso poeira e lágrima, seca e migração, chão e abandono
como se o sertanejo tivesse nascido triste como se eu fosse deserto de gente e não a casa mais antiga que esse país tem
me inventaram tantas vezes que até eu comecei a me perguntar quantos de mim cabem na palavra sertão
mas uma coisa eu sempre soube nenhuma dessas imagens me contém inteiro
fui empurrado pro fundo da prateleira, pro rótulo seco, pro retrato torto

mas escuta bem eu continuo aqui e continuarei
não porque me inventaram assim mas porque eu era antes deles
e serei depois
eu sou maior que a ideia que fizeram de mim sou chão 
que mastiga o tempo e devolve futuro 
sou o garrancho das plantas que não se rendem
sou a unha da terra que se agarra de volta
sou a poeira que dança
o boi que enfrenta
a árvore que insiste
sou o silêncio cheio de fala
sou o sol que não pede licença
sou um lugar que não cabe no seu diminutivo

e se quiser me entender
não venha com pena 
venha com respeito
venha com tempo
venha com as mãos abertas
porque eu sou o Sertão
e não, eu nunca fui pequeno
pequena é a visão de quem tenta me medir por mapa, por mito ou por medo
eu sou imenso eu sou antigo eu sou vivo e tenho orgulho do que sou
quem quiser que venha
mas venha sabendo 
eu não sou o fim do mundo
eu sou o começo

 
 
 

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