Vidas do Sertão Rural, um texto acadêmico
- Tandie Sogo

- 1 de mai.
- 9 min de leitura
Comunicação apresentada no IV Seminário de Política, Cultura e Ambiente (PoCAm), entre os dias 04 e 08 de maio de 2026, na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), campus Juazeiro/BA. GT: Arte, sociobiodiversidade e epistemologias contracoloniais no semiárido.
Introdução e justificativa
Vidas do Sertão Rural é um documentário que surge a princípio como uma contrapartida social à realização do 2º Festivalzinho de Cinema nos Projetos, em 2024, um projeto realizado pela Tandipie Cultural a partir de incentivo da Lei Paulo Gustavo por meio de edital da Prefeitura Municipal de Petrolina. O objetivo do trabalho foi oferecer protagonismo à população rural situada no Projeto Senador Nilo Coelho (PSNC), no mesmo município, proporcionando seu reconhecimento como agentes de transformação de uma dada realidade.
A condução das entrevistas aproxima-se do modo de trabalho de Eduardo Coutinho, cineasta responsável por obras como Cabra marcado para morrer (1984), Babilônia 2000 (2001), Edifício Master (2002) e Jogo de cena (2007), com seu estilo de valorização da escuta, da espontaneidade e do encontro com o outro. Nesse sentido, o trabalho buscou criar condições para que os moradores narrassem suas próprias experiências, memórias e formas de pertencimento ao território, valorizando o encontro e a imprevisibilidade do diálogo.
Desse modo, a pesquisa, aprofundada a partir da produção audiovisual, tem por referência a cidade de Petrolina, situada no semiárido pernambucano, região historicamente associada à seca, à escassez e ao isolamento. Porém, contrariando previsibilidades, a cidade tornou-se um dos principais polos de fruticultura irrigada e exportação de frutas do Brasil. Aquilo que parecia “impossível” — produzir frutas em larga escala, gerar riqueza agrícola, exportar uva e manga para outros países e dinamizar a economia local — passou a ser apresentado como marca da cidade. A irrigação, o rio São Francisco, as políticas públicas, a atuação da Codevasf, o trabalho rural e a agricultura familiar ajudaram a transformar uma região antes narrada como “terra hostil” em território produtivo.
Entretanto, nas narrativas sobre esse sucesso, há muitas vezes uma abstração dos responsáveis por sua realização concreta. Todo e qualquer discurso feito em letras, números e gráficos não representa, por si só, o esforço das pessoas que estiveram ali. Muito do que ficou convencionalmente conhecido como “Terra dos Impossíveis” se deve, inevitavelmente, ao território do PSNC e ao seu povo. É comum que o êxito seja creditado a um projeto nacional, envolvendo órgãos públicos, empresas estatais e nomes políticos. Não se trata de retirar a contribuição dos fatores de ordem econômica, técnica e política, mas de não admitir que seja esquecida a contribuição social de pessoas empenhadas com lágrimas e suor.
Tal qual a internet se desenvolveu para a sociedade em rede, como aponta Castells (2003), a partir de uma intersecção improvável entre pesquisa militar, investimento público em pesquisa de larga escala e cultura libertária (leia-se aqui também a contribuição imprescindível de inúmeros civis, programadores, hackers e outros sujeitos) o Projeto Senador Nilo Coelho também desponta como promessa e realização coletiva. Sua consolidação envolve políticas públicas, infraestrutura, técnica e produção de uva, manga, goiaba, banana e tantas outras variedades de frutas; mas envolve também trabalho cotidiano, permanência no território, memória e experiência popular.
Para além das evidências econômicas está a formação desse espaço, ou seja, como é o seu cotidiano, com suas interações e a dinâmica de um lugar que sempre chegou para este autor como a música Vilarejo, cantada por Marisa Monte, “por cima das casas, cal, frutas em qualquer quintal”, esses eram os interesses. Não poderia minimamente pressupor que estivesse fazendo um mapeamento de trajetórias tecno-produtivas, isto é, hoje no mestrado de Política, Cultura e Ambiente (PoCAm), pela Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), uma compreensão de como comunidades tradicionais produzem, vivem e permanecem no território. Não poderia igualmente imaginar da importância de desmitificar a “Terra dos Impossíveis” e suas estatísticas, como me foi desmitificada o “acidente” da descoberta do fogo pelos povos “primitivos” (hoje sabendo que essa é mais uma narrativa etnocêntrica e racista).
Não pretendo fazer com essas considerações uma ode à cultura do mestrado ou doutorado, pois veja que mesmo não estando ainda nesses campos acabei por produzir um documentário que hoje explico e fundamento melhor. É da minha esperança que o conhecimento me ajude e sempre contribua a explicar, mas que jamais faça intermédio do bem sentir e bem intuir. Se antes descortinei o palco do sucesso, desprestigiando ilustres figuras centrais, hoje com palavras e maiores conhecimentos lanço holofotes para revelar o esforço de maquinistas, operárias, plantadores, e um sem número de populares do Projeto Senador Nilo Coelho, a exemplo: Seu Pedro Bezerra, Dona Anatilde Bezerra, Dona Francisca, Seu José Piauí, Dona Nenzinha, Dona Fátima, Marcos Galdino e Dona Maria de Antas.
Desenvolvimento
Antes de tratar do sertão rural, é necessário retomar o próprio sentido da palavra sertão. O termo não designa apenas um lugar fixo no mapa, tampouco se limita à ideia de interior seco, de zona rural ou de paisagem marcada pela escassez. Como aponta Antonio Filho, a palavra sertão possui “origens e significados os mais diversos”, o que exige especificar qual sertão está sendo mobilizado em cada análise (ANTONIO FILHO, 2011, p. 84). Em sua leitura geográfica, o sertão aparece associado à interioridade, isto é, às terras afastadas do litoral, dos centros urbanos e dos espaços historicamente controlados pelo poder colonial e estatal (ANTONIO FILHO, 2011, p. 85). Desse modo, mais do que uma região natural, o sertão pode ser compreendido como uma posição histórica e relacional: um espaço construído na tensão entre centro e margem, presença e ausência do Estado, integração econômica e desigualdade social.
Por muito tempo (e um pouco ainda hoje) o sertão foi representado a partir de imagens de atraso, isolamento, pobreza e escassez. Essas representações foram sustentadas por experiências concretas de abandono estatal, desigualdade regional, secas, migrações e precariedade material, muito embora tudo isso possa ser fundamentalmente embasado por ignorâncias e incompetências por preconceitos (saibamos que o distante e inexplorado, vide experiências etnográficas muito remotas e ultrapassadas, resultava em etnocentrismos). Contudo, ao se cristalizarem como estereótipo, passaram a reduzir o sertão a uma paisagem única, homogênea e atrasada, borrando percepções de suas transformações históricas, seus centros urbanos, suas tecnologias, suas universidades, sua produção cultural e sua complexidade econômica.
Nesse sentido, pensar o sertão rural não significa retomar de forma acrítica a imagem antiga do sertão isolado, nem negar a existência de um sertão urbano, dinâmico e contemporâneo. Ao contrário, significa reconhecer que a ruralidade permanece como dimensão fundamental da experiência sertaneja, especialmente quando observada a partir da agricultura familiar, da memória dos primeiros moradores e das formas comunitárias de produção da vida.
A partir disso, pode-se compreender que falar em sertão rural não significa negar o sertão urbano contemporâneo, mas delimitar uma dimensão específica dessa experiência histórica. O sertão rural permite observar sujeitos, memórias e práticas ligadas à terra, à agricultura familiar e à construção comunitária de territórios que, muitas vezes, aparecem apenas como cenário do agronegócio ou como resíduo de um passado de atraso. No caso de Vidas do Sertão Rural, essa escolha se justifica porque o documentário busca valorizar os relatos dos primeiros moradores do Projeto Senador Nilo Coelho, deslocando o olhar dos grandes indicadores econômicos para as vidas que participaram da formação desse território irrigado.
O sertão rural, portanto, aparece como uma categoria de escuta e reconhecimento. Ele permite observar sujeitos que participaram da transformação de uma realidade historicamente narrada como “hostil”, mas que nem sempre aparecem nos discursos oficiais do desenvolvimento. No caso do Projeto Senador Nilo Coelho, o documentário busca justamente deslocar o olhar dos grandes números da fruticultura irrigada para as vidas, memórias e testemunhos daqueles que chegaram, trabalharam, cultivaram e ajudaram a construir esse território.
Segundo o Distrito de Irrigação Nilo Coelho (DINC), o Projeto Público de Irrigação Senador Nilo Coelho (PPISNC) foi implementado na década de 80, pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) cuja criação se dá em 1974. Isso embora os primeiros estudos tivessem acontecido ainda na década de 60, pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), com assessoria da Food and Agriculture Organization (FAO), Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.
O que levou um estudo durar quase ou mais de 20 anos em pleno tempo de ditadura militar é algo para refletir ou especular, mas por não termos o intuito para tal, fiquemos certos que foi apenas cada vez mais próximo da redemocratização brasileira que algo aconteceria na “terra dos impossíveis”. E assim, entre 1984 a 1986, a Codevasf (que ainda não tinha no seu complemento o “Parnaíba”) administrou o Projeto. Muito provavelmente como uma das medidas da aproximação do anseio popular, a gestão foi repassada aos produtores até 1989, através de associações por núcleos de produção, em seguida, passou a ser gerido pelo DINC, até os dias de hoje.
Um dado sobre a representação da agricultura em Petrolina a partir do Produto Interno Bruto (PIB) permite-nos entender o que representa a fruticultura irrigada para Petrolina e para o Brasil. Em entrevista à Folha de Pernambuco no ano de 2023, um ano antes do documentário, Marcus Melo, economista da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Pernambuco (Faepe), fala que Petrolina, tinha a cada dez empregos, três no agronegócio. Além disso, enquanto a média nacional girou em torno de 6% no setor primário - agricultura, pecuária e extrativismo, Petrolina possuía cerca de 17% do seu PIB no mesmo setor.
Os moradores do PSNC sabem muito bem da importância do local, chegam a falar expressamente que antes dos núcleos de irrigação a cidade não tinha o menor desenvolvimento, mas depois do projeto, “tudo cresceu”. Eles sabem que são fundamentais para o desenvolvimento econômico da cidade, e possuem suas vidas marcadas por esses modos. A autoestima e o orgulho de fazer parte da riqueza de uma cidade estão em suas consciências, cientes de que suas frutas chegam em diversos cantos do país e do mundo.
O relato de algumas mulheres, que sempre acompanharam seus maridos, torna-se pungente quando falam que passaram por dificuldades diversas, e tão logo eles alcançaram maior privilégio financeiro, com sucesso de alguma safra, acabaram por deixar seus lares. Uma história que nos lembra os infortúnios vividos pelas personagens Medeia e Joana, da peça grega Medeia (Eurípedes) e da peça brasileira Gota d’água (Chico Buarque), respectivamente.
Um ponto em especial é frágil e de insatisfação. Antes levanto uma reflexão: como um espaço forjado por agricultura familiar foi pouco a pouco marcado pelo agronegócio? É uma observação que devemos fazer com cautela, mas que também apresenta indícios na fala dos primeiros moradores. Relatos sobre a dificuldade de plantações, com perdas significativas, mas também propostas de compras e indução a migração para o meio urbano, assim como a existência recorrente da figura de atravessadores (pessoas que agem como intermédio entre a agricultura familiar e feiras, mercados, exportadores, etc).
Na agricultura familiar, os atravessadores são agentes intermediários que compram a produção dos agricultores e a revendem em outros mercados. Embora possam cumprir funções logísticas, como transporte, escoamento e articulação comercial, sua presença também revela desigualdades na cadeia produtiva, sobretudo quando os produtores não possuem acesso direto aos canais de venda. Nesses casos, o agricultor familiar, mesmo sendo responsável pelo cultivo e pela sustentação material da produção, tende a receber valores menores, enquanto a maior parte do lucro se concentra nas etapas posteriores da comercialização.
Conclusão
O documentário e essa pesquisa textual demonstram e reforçam a importância do protagonismo por parte dos primeiros moradores do PSNC. A comunidade rural tradicional pode até se enxergar como parte da riqueza de um local, de um país, e também reconhecer a contribuição da iniciativa pública na iniciativa de incentivos iniciais, mas sentem a falta de políticas públicas para a manutenção de suas histórias e resistência a uma crescente força de multinacionais, por exemplo. Sentem falta de algo que lhes assegure uma participação digna nas grandes cifras transacionadas no mercado, minimamente equivalente à sua participação na construção dessa riqueza.
O que se desenvolve na década de 80, em especial em 1986 até a data de hoje, é um crescimento exponencial que envolve muitos fatores que extrapolam o que vez ou outra é mencionado como um fruto do “regime militar”. Talvez bem pelo contrário, o caso de sucesso do Projeto Senador Nilo Coelho seja um produto resultado de redemocratização, apelo popular, investimento público e povo trabalhador, que prestam depoimentos para contar suas histórias. É certo que ainda hoje e por muito tempo, como o bem e para o bem da democracia, o povo precisa da iniciativa pública e a iniciativa pública precisa do povo para juntos construírem resultados possíveis para alcançar um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil previstos na Constituição que é o de “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais” (art. 3º, inciso III).
Referências bibliográficas
ANTONIO FILHO, Fadel David. Sobre a palavra “sertão”: origens, significados e usos no Brasil (do ponto de vista da ciência geográfica). Ciência Geográfica, Bauru, v. 15, n. 1, p. 84-87, 2011.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, 1988. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 20 mar. 2026.
CASTELLS, Manuel. A galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
DINC. Com 37 anos de implementação o Projeto Público de Irrigação Senador Nilo Coelho (PPISNC) é o principal gerador de emprego e renda de Petrolina (PE). Disponível em: <https://www.dinc.org.br/noticias/com-37-anos-de-implementacao-o-projeto-publico-de-irrigacao-senador-nilo-coelho-ppisnc-e-o-principal-gerador-de-emprego-e-renda-de-petrolina-pe/>. Acesso em: 20 mar. 2026.
FOLHA DE PERNAMBUCO. Agronegócio pernambucano bate recorde de exportações em 2023. Disponível em: <https://www.folhape.com.br/economia/agronegocio-pernambucano-bate-recorde-de-exportacoes-em-2023/314921/>. Acesso em: 20 mar. 2026.
GOMES, Johnatan Diego de Souza. Vidas do Sertão Rural. Petrolina: Tandipie Cultural, 2024. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=oXdBEfq9Lxg&t=1s>. Acesso em: 20 mar. 2026.

Comentários